terça-feira, 29 de março de 2016

As leis de Deus apontam o caminho

Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por intermédio de Jesus Cristo. — João 1.17

As leis dadas por intermédio de Moisés são leis de Deus. Junto com os Dez Mandamentos, elas apontam a direção certa, mostram a melhor forma de viver e falam sobre justiça e vida eterna. As leis de Deus são como um dedo que aponta o caminho correto. Dedos são uma parte útil do corpo. Entretanto, se você não tiver também pés ou um veículo, nunca poderá chegar à estrada certa. Um dedo pode apontar-lhe a direção correta, mas não pode levá-lo até lá.

De modo semelhante, as leis de Deus lhe dizem o que e como ele deseja que seja feito. Elas atestam que você é incapaz de obedecê-las. Tais ordenanças mostram como realmente é a natureza humana – o que ela pode fazer e o que não pode. Elas foram dadas a você para revelar os seus pecados, mas não têm o poder de libertá-lo deles ou de ajudá-lo a se livrar deles. Os mandamentos divinos seguram um espelho à sua frente; ao olhar para eles, você percebe que não tem vida nem aprovação de Deus. O que você vê no espelho o força a clamar: “Vem, Senhor Jesus Cristo, ajude-me e dê-me da sua graça para que eu possa fazer o que a sua lei exige!”.


>> Retirado de Somente a Fé – Um Ano com Lutero. Editora Ultimato.

Quem é Deus? O que é Deus? Como podemos conhecê-lo?

Pergunta: "Quem é Deus? O que é Deus? Como podemos conhecê-lo?"

Resposta: 

Quem é Deus? - O fato
O fato da existência de Deus é tão visível, tanto através da criação quanto através da consciência do homem, que a Bíblia chama o ateu de "tolo" (Salmo 14:1). Assim, a Bíblia nunca tenta provar a existência de Deus, antes, ela supõe a Sua existência desde o início (Gênesis 1:1). O que a Bíblia faz é revelar a natureza, o caráter e a obra de Deus. 

Quem é Deus? – A Definição 
Pensar corretamente sobre Deus é de extrema importância porque uma falsa ideia sobre Deus é idolatria. Em Salmo 50:21, Deus reprova o ímpio com esta acusação: "Você pensa que eu sou como você?" Para começar, uma boa e resumida definição de Deus é "o Ser Supremo, o Criador e Regente de tudo o que existe; o Ser auto-existente que é perfeito em poder, bondade e sabedoria." 

Quem é Deus? - Sua Natureza 
Sabemos que certas coisas acerca de Deus são verdadeiras por uma razão: em Sua misericórdia Ele condescendeu a revelar algumas de Suas qualidades para nós. Deus é espírito, intangível por natureza (João 4:24). Deus é Um, mas existe como três pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo (Mateus 3:16-17). Deus é infinito (1 Timóteo 1:17), incomparável (2 Samuel 7:22) e imutável (Malaquias 3:6). Deus existe em todos os lugares (Salmos 139:7-12), sabe tudo (Mateus 11:21) e tem todo o poder e autoridade (Efésios 1; Apocalipse 19:6). 

Quem é Deus? – Seu Caráter
Aqui estão algumas das características de Deus como reveladas na Bíblia: Deus é justo (Atos 17:31), amoroso (Efésios 2:4-5), verdadeiro (João 14:6) e santo (1 João 1:5). Deus mostra compaixão (2 Coríntios 1:3), misericórdia (Romanos 9:15) e graça (Romanos 5:17). Deus julga o pecado (Salmos 5:5), mas também oferece o perdão (Salmos 130:4). 

Quem é Deus? - Sua Obra
Não podemos compreender Deus longe de suas obras porque o que Deus faz flui de quem Ele é. Aqui está uma lista resumida das obras de Deus, passadas, presentes e futuras: Deus criou o mundo (Gênesis 1:1, Isaías 42:5); Ele ativamente sustenta o mundo (Colossenses 1:17); Ele está executando o Seu plano eterno (Efésios 1:11) que envolve a redenção do homem da maldição do pecado e da morte (Gálatas 3:13-14); Ele atrai as pessoas para Cristo (João 6:44); Ele disciplina os Seus filhos (Hebreus 12:6) e Ele julgará o mundo (Apocalipse 20:11-15). 

Quem é Deus? - Um Relacionamento com Ele
Na pessoa do Filho, Deus se encarnou (João 1:14). O Filho de Deus se tornou o Filho do homem e é, portanto, a "ponte" entre Deus e o homem (João 14:6, 1 Timóteo 2:5). É somente através do Filho que podemos ter o perdão dos pecados (Efésios 1:7), a reconciliação com Deus (João 15:15, Romanos 5:10) e a salvação eterna (2 Timóteo 2:10). Em Jesus Cristo, "habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9). Assim, para saber realmente quem é Deus, tudo que temos que fazer é olhar para Jesus.


gotquestions.org

quinta-feira, 24 de março de 2016

A páscoa

“Quando o Senhor passar pela terra para matar os egípcios,verá o sangue na viga superior e nas laterais da porta e passará sobre aquela porta”.Êxodo 12.23

Deus deu instruções claras sobre a décima e última praga. Por volta da meia-noite ele atravessaria o Egito exercendo juízo, e todos os primogênitos de todas as classes sociais morreriam.
Os israelitas, porém, seriam poupados. Para isso, cada família deveria sacrificar um cordeiro de um ano, sem defeito. O sangue do cordeiro deveria ser passado na viga superior e nas laterais das portas de suas casas, e ninguém poderia sair de casa até o amanhecer. Naquela noite Deus passaria pelo Egito, mas ao vir o sangue, passaria por cima daquela casa, protegendo-a. A festa da páscoa marcaria o começo do calendário anual dos israelitas e deveria ser celebrada anualmente.
Para os cristãos, Jesus Cristo é “o Cordeiro de Deus”, acerca de quem podemos afirmar: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa” (1Co 5.7-8). Podemos aprender muitas verdades com essa história. A primeira é que o Deus que julga é também o Deus que salva.
O Deus que atravessou o Egito para julgar os primogênitos é o mesmo Deus que passou por sobre as casas dos israelitas, protegendo-os da morte. Não podemos caracterizar o Pai como Juiz e o Filho como Salvador. É o mesmo e único Deus que nos salva do juízo através de Jesus Cristo.
A segunda verdade é que a salvação foi (e é) por substituição. Os únicos primogênitos poupados foram aqueles em cujas casas um cordeiro primogênito havia sido sacrificado. Terceira, o sangue do cordeiro deveria ser aspergido depois de derramado. Cada família deveria se apropriar individualmente da provisão divina. Para que a família fosse salva Deus precisaria antes ver o sangue.
A quarta verdade é que todas as famílias resgatadas passaram a pertencer a Deus. Suas vidas agora pertenciam a ele, da mesma forma que nossas vidas pertencem ao Senhor. E a consagração leva à celebração. A vida do povo redimido de Deus é uma festa contínua, expressa ritualmente na Eucaristia, a festa cristã de ação de graças.
Para saber mais: Apocalipse 5.6-14

Nota: texto retirado do livro A Bíblia Toda, O Ano Todo, de John Stott.
Ilustração: Christina Bailt

O Apelo à Santidade



Muitos dos segredos para a santidade nos são dados nas páginas da Bíblia. De fato, um dos maiores propósitos da Bíblia é mostrar ao povo de Deus como viver de forma digna e agradável ao Senhor. Porém um dos aspectos mais negligenciados na questão da santidade é o papel da mente, mesmo que Jesus tenha esclarecido a questão quando prometeu que: “conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.
É por meio da verdade que Cristo nos liberta do domínio do pecado. Como isso funciona? Onde está o poder libertador da verdade?

Para começar, precisamos Ter uma visão clara do tipo de pessoa que Deus quer que sejamos. Precisamos conhecer as leis morais e os mandamentos de Deus. Como John Owen expressa, “aquele bem que a mente pode descobrir, que a vontade não pode escolher,  que os sentimentos não podem discernir”. Ainda assim, “nas Escrituras o engano da mente é comumente visto como o princípio de todo pecado”.

O melhor exemplo disso talvez seja encontrado na vida terrena de nosso Salvador. Por três vezes o diabo veio até ele e o tentou no deserto da Judéia. Por três vezes Ele reconheceu que a sugestão do diabo era maligna e contrária a vontade de Deus. Por três vezes Ele enfrentou a tentação com a palavra gegraptai, “está escrito”. Não havia espaço para debate ou argumento. O problema estava resolvido na mente dele desde o começo. Porque a Escritura tinha estabelecido o que era certo. Um conhecimento claro da vontade de Deus é o primeiro segredo para uma vida reta.

No entanto não é suficiente sabermos o que devemos ser. Precisamos ir além e empenhar nossas mentes nisso. A batalha é quase sempre ganha na mente. É por meio da renovação da nossa mente que nosso caráter e comportamento são transformados. Assim, as Escrituras nos chamam novamente para uma disciplina mental a esse respeito. “Tudo o que for verdadeiro”, - ela afirma - “tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas”.

Novamente, “portanto, se vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham os pensamentos nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus”.

E, uma vez mais, “quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem vive de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz”.

Autocontrole é primeiramente o controle da mente. O que plantamos em nossas mentes colhemos em nossas ações. “Alimentem a mente” é o slogan de uma campanha para a difusão de literatura cristã. Ela se baseia no fato de que a mente precisa ser alimentada da mesma forma que o corpo. E o tipo de alimento que nossa mente consome vai determinar o tipo de pessoa que nos tornaremos. Mentes saudáveis têm um apetite saudável. Precisamos satisfazê-las com uma alimentação saudável e não com drogas e venenos intelectuais perigosos.

Existe, no entanto, um segundo tipo de disciplina mental à qual somos apresentados no Novo Testamento. Devemos considerar não apenas o que devemos ser, mas o que, pela graça de Deus, já somos. Devemos constantemente lembrar o que Deus fez por nós e dizer para nós mesmos: “Deus me uniu com Cristo pela morte e ressurreição, e assim anulou minha vida antiga e me deu uma vida totalmente nova em Cristo. Ele me adotou na família dele e me fez seu filho. Ele colocou o Espírito Santo em mim e, assim, fez do meu corpo um templo para ele. Também me fez herdeiro e me prometeu um destino eterno com ele no céu. Isso é o que Ele fez por mim e em mim. Isso é o que sou em Cristo”.

Paulo sempre nos diz para trazer à mente essas coisas. “Quero que vocês saibam” - ele escreve - “não quero que vocês sejam ignorantes”. E pelo menos dez vezes nas cartas aos Romanos e aos Coríntios ele faz a pergunta: “Vocês não sabem?”. Vocês não sabem que foram batizados por causa da morte dele? Não sabem que são escravos daquele a quem devem obediência? Não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Não sabem que os transgressores não entrarão no reino de Deus? Não sabem que os corpos de vocês são membros de Cristo?

A intenção do apóstolo com essa seqüência de perguntas não é apenas fazer com que nos sintamos envergonhados por nossa ignorância. Em vez disso, ele quer nos levar a recordar essas grandes verdades sobre nós mesmos, que de fato sabemos bem, e quer falar conosco sobre elas até que se fixem em nossa mente e moldem nosso caráter. Essa não é a autoconfiança de Norman Vicent Peale. A estratégia de Peale é nos fazer fingir ser o que não somos. A estratégia de Paulo é nos lembrar do que verdadeiramente somos, pois Deus nos fez dessa forma em Cristo.




quarta-feira, 16 de março de 2016

Qual foi o pecado de Lúcifer?


Questiono-me sobre qual foi o pecado de Lúcifer? O porquê em certo ponto da eternidade ele teve essa idéia de ser igual a Deus. Assim, do nada, ele, um anjo de luz, em um dos mais altos cargos celestiais, ele que já estava no status mais alto alcançado por uma criatura, tem a idéia de ser mais do que é? A bíblia não conta a história de Lúcifer, e graças a Deus que não, pois, mesmo não contando, tem gente que gasta mais tempo falando dele do que de Cristo. Tudo que falamos de sua queda é especulação da revelação. Mas esta pergunta especulativa, de qual foi o verdadeiro pecado de lúcifer me intriga até hoje e gostaria de escrever algumas idéias sobre o assunto.
É um pouco difícil entender a origem das quedas. Sempre “pisamos em ovos”, esbarrando em valores filosóficos. Mas, parece que qualquer ação primária de uma criatura contra Deus é fruto de um estímulo externo, como, por exemplo, em Adão e Eva, quando houve a necessidade de algo externo, a serpente (satanás), para estimular algo no ser humano e tentá-lo a ser (ou fazer) algo que para o qual não foi criado. O primeiro pecado da humanidade só veio depois de um estimulo externo, e não interno como é hoje, pois a criatura de Deus sempre é perfeita (pura), porque Deus é perfeito.
A grande questão no caso de Lúcifer é saber qual foi o estímulo externo que ele teve para cometer o primeiro pecado. Supostamente não surgiu de dentro dele, pois todas as criaturas de Deus, em sua origem são perfeitas como Deus é. Em Ezequiel 28.15 está escrito que Lúcifer era perfeito desde o dia em que foi criado até o dia da sua iniqüidade.
A bíblia nos fala que Lúcifer quis ser igual a Deus. O que quer dizer com ser igual a Deus? De onde veio esta idéia na cabeça de Lúcifer, de achar que podia ser igual a Deus, sendo que não havia nenhum anjo ou algo criado que estivesse acima dele? Ele realmente achou que poderia ser Deus? Não penso que ele era tão ingênuo. Então, qual fator externo foi a faísca para estimular o pecado de Lúcifer? Eu diria: A criação do ser humano.
Quando Deus criou, ou então, anunciou na eternidade os seus planos de uma criatura com a imagem e semelhança Dele, Ele anunciou o fato de que uma criatura seria maior do que os anjos. Isso caiu como uma bomba para os ouvidos de um anjo tão belo e tão poderoso como Lúcifer. Até hoje discutimos o que realmente é a Imago dei, isso que chamamos de imagem e semelhança de Deus, mas o que não se discute é que só o ser humano a tem, e que nenhuma outra criatura, inclusive os anjos, teve este privilégio.
Quando Deus anuncia (ou cria) o ápice de toda Sua criação, o ser humano, ainda o criou com livre arbítrio (pelo menos Adão e Eva), igual aos anjos, mas com um grande detalhe: Jesus ofereceu a sua própria vida na eternidade para garantir a preservação do ser humano “caso” a raça humana escolhesse desobedecer a Deus. É isso que o apóstolo Pedro (IPe. 1:20) nos fala em sua carta. Isso foi demais para Lúcifer! Não pode ser! Alem de ter uma criatura acima dele, o próprio Deus garante sua preservação eterna.
Foi quando Lúcifer, “levado seu coração por sua formosura”, e um terço dos anjos celestiais exigiram perante o trono de Deus: nós queremos ser iguais a Deus, queremos ser a imagem e semelhança de Deus também.
E aí nos leva a grande questão: qual o pecado de Lúcifer? Isso explicaria o ódio que Satanás tem de nós seres humanos, e o texto de Apocalipse 12:10, que fala que ele é o acusador dos homens, que acusa de dia e de noite diante do trono de Deus. Acusa o que para Deus? Acusa de ter sido injusto com eles, os anjos caídos, pois, a final de contas, os seres humanos eram iguais a eles na transgressão!
Quando pensei em tudo isso, veio a sacada que achei estar correta: O pecado de Lúcifer foi querer ser igual ao homem!
Mas, depois, pensando bem, descobri que esta “especulação teológica” estava incompleta. Pois o mesmo texto de Apocalipse fala, um verso antes, “que agora veio salvação, o poder, e a autoridade de seu Cristo”. Como pode esta salvação? Pela autoridade do verdadeiro Adão, pois quem o expulsa do céu, segundo este texto, é o próprio Cristo por causa do sangue do cordeiro!
Então pude aterrizar em minha especulação teológica de descobrir o verdadeiro pecado de Lúcifer. Não foi apenas ser igual ao homem, a imagem e semelhança de Deus, o pecado de Lúcifer foi querer ser igual a Jesus Cristo encarnado, o verdadeiro projeto de Deus, o ser humano na sua essência. Isso talvez explique que, ao se frustrar em querer determinar ser à imagem e semelhança de Deus, Lúcifer se tornou o antiprojeto criacional de Deus, o anti-homem em sua plenitude, mais conhecido como o Anti-Cristo!


 ultimato

quinta-feira, 3 de março de 2016

José do Egito e a mulher de Potifar

A história do não envolvimento de José com a mulher de Potifar tem sido desperdiçada. Embora seja uma história muito antiga (o fato aconteceu há quase 4 mil anos), ela é muito atual porque descreve um drama corriqueiro (o sexo ilícito). Prega-se e escreve-se muito mais sobre o vergonhoso fracasso de Davi no que diz respeito ao seu duplo adultério com Bate-Seba do que sobre a brilhante vitória de José no que diz respeito ao seu não adultério com a mulher de Potifar. Das duas histórias, qual delas revela mais e favorece mais a natureza humana?

A história de José é diametralmente oposta à história daquele rapaz sem juízo de que fala o livro de Provérbios. Tanto a mulher de Potifar como a outra mulher eram casadas e estavam atrás de sexo ilícito. Ambas convidaram os dois rapazes para ir para a cama. A segunda mulher foi mais melosa: “Venha, vamos amar a noite toda. Passaremos momentos felizes nos braços um do outro” (Pv 7.18). Nem José nem o rapaz sem juízo precisavam se preocupar com os maridos delas, pois o primeiro estava trabalhando fora de casa e o segundo estava fazendo uma longa viagem a trabalho. Ambas aproveitaram bem a oportunidade: a mulher de Potifar agarrou José pela capa (Gn 39.12) e a outra agarrou o rapaz sem juízo e o beijou (Pv 7.13). Se o comportamento das duas mulheres foi igualzinho, o comportamento dos dois homens foi muito diferente. Por ser temente a Deus (ou porque era uma árvore plantada junto à Fonte), José fugiu da situação e da tentação. Já o outro caiu na conversa da moça e foi com ela para debaixo dos lençóis coloridos e importados e cuidadosamente perfumados com mirra, aloés e flor de canela (Pv 7.15-17).

Mas as duas histórias não terminam aí. Enquanto José não atrapalha a sua carreira e segue em frente, o rapaz sem juízo toma o caminho que leva ao matadouro ou ao alçapão, e uma flecha atravessa o seu coração (Pv 7.22-23). Homem nenhum, diz a sabedoria dos Provérbios, pode carregar fogo no colo sem queimar a roupa, nem andar em cima de brasas sem queimar os pés. É isso que acontece com “o homem que dorme com a mulher de outro” (Pv 6.27-29) ou com a mulher que dorme com o marido de outra.

Por que é um desperdício não contar ambas as histórias, a de Gênesis 39 e a de Provérbios 7? Elas ajudariam a adolescência e a moçada de hoje a não agir segundo a carne, segundo a mídia, segundo a permissividade sexual. Principalmente se nos lembrarmos que José era um jovem de 17 anos, ainda solteiro, cheio de vigor, cheio de vida, cheio de saúde e cheio de curiosidade quanto ao amor e quanto ao sexo. Quando Davi viu a nudez de Bate-Seba e caiu em adultério, ele já era um homem feito e já conhecia a nudez de sete esposas (2Sm 3.2-4; 14) e de dez concubinas (2Sm 15.16). Acresce que José na ocasião era um rapaz sozinho, sem a proteção do pai e sem o aconchego da família, embora estivesse junto à Fonte (Gn 49.22)!


Autopurificação?

nº 100

O pecado sempre deixa não só a sensação de culpa, mas também a incômoda sensação de sujidade. Se o pecador confessa o seu pecado, Deus o perdoa. E quem vai purificar a sua alma manchada pelo pecado cometido? A Bíblia parece confusa, pois, enquanto em algumas passagens o pecador é exortado a purificar-se, em outras se lê que é Deus quem nos purifica de todo pecado. Existe tal coisa como autopurificação?

Em Isaías, Deus ordena ao povo: “Lavem-se e purifiquem-se! Não quero mais ver as suas maldades” (1.16). Nos Salmos, o pecador suplica a Deus: “Purifica-me de todas as minhas maldades e lava-me do meu pecado” (51.2).

Em 2 Coríntios, Paulo exorta: “Purifiquemo-nos a nós mesmos de tudo o que torna impuro o nosso coração e a nossa alma” (7.1). Em Tito, o mesmo apóstolo lembra que Jesus é aquele “quem se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar de toda maldade e de nos purificar” (2.14).

Em 1 João, o apóstolo diz que todo aquele que tem a esperança em Cristo, “purifica-se a si mesmo, assim como Cristo é puro” (3.3). Na mesma epístola, João afirma que Deus “nos limpará de toda maldade” (1.9).

Em Tiago, o escritor faz um apelo: “Lavem as mãos, pecadores! Limpem o coração, hipócritas!” (4.8). Em Zacarias, o Senhor Todo-Poderoso promete: “Estes que sobrarem eu farei passar pelo fogo. Eu os purificarei como se purifica a prata e os refinarei como se refina o ouro” (13.9).

Esses pares de passagens bíblicas levantam uma pergunta: afinal, quem lava ou purifica os pecadores de suas manchas? É o sangue de Cristo ou o esforço humano?

O assunto é de suma relevância. Portanto não se pode cometer engano algum. Não se pode dizer absurdos como estes:

A limpeza da alma é por conta exclusiva do pecador.
A limpeza da alma é iniciada pelo transgressor e concluída pela graça de Deus.
A limpeza da alma é uma obra conjunta e depende tanto do ser humano quanto da misericórdia de Deus.
A limpeza da alma é inviável, uma vez imundo pelo pecado, o pecador continua imundo para sempre.

Na verdade, o que deixa o pecador limpo e “mais branco que a neve” é o resultado do sacrifício expiatório de Jesus. Daí a afirmativa de João: “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). A Palavra de Deus assevera que Jesus só foi assunto ao céu e sentou-se ao lado de Deus, “depois de ter purificado os seres humanos de seus pecados” (Hb 1.3). A mesma carta aos Hebreus explica que “porque Jesus Cristo fez o que Deus quis, nós somos purificados do pecado pela oferta que ele fez, uma vez por todas, do seu próprio corpo” (Hb 10.10).
As passagens logo acima citadas não se contradizem. São abordagens diferentes. Não ensinam de forma alguma a autopurificação do ser humano caído. O pecador se purifica quando fica horrorizado com a sua culpa e a sua sujeira e quando toma conhecimento do sacrifício vicário de Jesus e se apropria dele pela fé. Sem a cruz e o túmulo vazio, não haveria a menor possibilidade nem de perdão nem de purificação. Uma vez atingido pela graça, a alma manchada de vermelho escuro fica branca como a neve ou como a lã (Is 1.18)!


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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Poderás pescar com anzol o Leviatã?

Ult_Jovem_06_11_15_leviata_pqPor Gabriel Brisola
CINEMA
Jó era um homem temente a Deus. Tinha riquezas, filhos, posses e andava de modo reto na terra. Certa feita, em um encontro improvável, Satanás lança um desafio a Deus: a fidelidade do homem é precária, frágil, basta tocar em Jó que ela se esvai, perdida em dor e tragédia. Satanás andava perambulando pela terra, talvez se aproveitando dos caminhos tortuosos do homem, encontrando oportunidade para disseminar sofrimento e morte através daqueles que habitam as cidades. Talvez a fidelidade de Jó fosse em decorrência de Deus tê-lo abençoado; caso Deus permitisse a miséria, Jó poderia mostrar-se infiel e vão como todos os outros homens.
Satanás tomou tudo o que era dele, sua família, suas posses e sua saúde. Entregando-se ao pó, Jó rasgou suas vestes e raspou a cabeça, em sinal de luto. Não haveria de culpar Deus nem mesmo sua própria sorte. Não havia motivos aparentes para tal destino em sua vida. Jó não tem escolha, a não ser encarar o abismo em que sua vida se tornou.
***
Leviathan é um filme russo, de 2014. Concorreu aos principais prêmios do cinema e foi considerado um dos melhores filmes do ano passado. Como é de costume, recebemos a obra com um pouco de atraso, após a passagem por festivais mundo a fora.
Kolya é um mecânico que mora com sua segunda esposa, Lilya, e seu filho Roma, em uma pequena cidade no interior da Rússia. O prefeito da cidade quer expropriar sua casa para, aparentemente, erigir uma torre de comunicação. Ao que parece, Kolya e seus familiares erigiram a casa com suas próprias mãos e o protagonista não abre mão do trabalho de sua família. Dima, advogado e amigo do protagonista, vêm de Moscou para cuidar do caso, que toma proporções enormes, tendo em vista a pressão vinda das autoridades locais sobre Kolya.
É difícil falar mais acerca da história: qualquer detalhe revelado pode estragar a surpresa dos acontecimentos, que são muitos no filme. Porém, algumas coisas podem ser ditas brevemente acerca do que efetivamente acontece na história.
A narrativa expõe alianças nefastas entre o prefeito, a polícia, o judiciário e a igreja. Tais conexões são claras, como quando o protagonista vai à polícia, junto a seu advogado, para denunciar um ataque pessoal do prefeito e, chegando, não encontra oficial algum que possa atendê-lo, muito menos alguém que possa auxiliá-lo nesse momento. As figuras de autoridade são peças no jogo do prefeito e seus capangas. Ao mesmo tempo, quando chamado ao tribunal para ouvir o veredito sobre sua propriedade, é tomado por uma enxurrada de termos técnicos jurídicos, pronunciados em velocidade burocrática e mecânica: o sistema passa por cima das pessoas de forma cruel. Nesse jogo, a igreja age como legitimadora dessas forças, o sacerdote aconselhando o prefeito a exercer a força que vem, supostamente, do próprio Deus.
Mas ainda há outro lado da história. Nessa cidade, entre os amigos de Kolya e os moradores subempregados, as mulheres são tratadas de forma cruel e machista, o protagonista sendo um desses que vive uma relação de desprezo por sua própria esposa, tratando-a como objeto em diversos momentos. A violência às mulheres está enraizada nesse vilarejo e o espectador se surpreenderá com a sensibilidade com que o diretor trata essa temática.
A cidade parece um lugar esquecido por Deus e dominado pelos homens em sua força e alianças com a igreja e o capital. Um lugar que, infelizmente, parece um tanto com nosso Brasil.
***
A história de Jó encontra um final inesperado. Após as discussões com seus “amigos”, rechaçando-os um após o outro, que o acusam de pecado e outras coisas do tipo, Deus se manifesta a ele. Jó é concedido uma audiência com Deus: coberto de cinza e com as vestes rasgadas, encontra Deus.
Jó tinha boas razões, penso eu. Compartilho de suas queixas, apesar de não fazer ideia da imensidão de seu sofrimento. Deus, ao invés de responder suas perguntas, escolhe outra abordagem. “Jó, levante, agora é minha vez de lhe inquirir.” Em um discurso que revela a grandeza e a soberania de Deus sobre todas as coisas, Jó é confrontado com sua própria pequenez diante de um Deus que não se faz surdo ao grito do miserável. Não lhe é dada a sabedoria das coisas misteriosas e profundas, como a fonte de seu sofrimento ou o propósito de sua dor. Tais coisas são demais para Jó, são demais para nós.
Kolya perde tudo. Não estrago o filme ao contar esse fato. O protagonista é enredado em uma tragédia como poucas, fruto da maldade do homem. Ao andar pelo vilarejo, bebida em mãos, desconsolado, encontra um piedoso sacerdote que carrega pães para distribuir aos pobres. Questiona o religioso acerca de Deus e de seu sofrimento, se ser crente o livraria de tal sina. O homem evoca os versos de Jó (41:1-2,34): “Você consegue pescar com anzol o Leviatã ou prender sua língua com uma corda? Consegue fazer passar um cordão pelo seu nariz ou atravessar seu queixo com um gancho? (…) Com desdém olha todos os altivos; reina soberano sobre todos os orgulhosos”. O sacerdote o aconselha a resignar-se ao seu destino, afinal Jó ainda viveu para ver as gerações de sua família florescer.
Mais cedo no filme, Roma, filho do protagonista, foge de casa e sai correndo pela costa, encontrando o esqueleto de um grande peixe, ao lado qual se põe a chorar. O Leviatã foi finalmente morto. Tudo o que atraca naquela terra infértil torna-se pó. Quais forças a maldade do homem não consegue subjugar?
Jó, por fim, viu a Deus e seu encontro com Ele trouxe paz a sua vida. A mera presença de Deus, e aqui digo num sentido concreto, não espiritualizado da coisa, traz descanso e alívio ao sofrimento de Jó. O próprio Deus mostra suas feridas aos homens, caminhando ao lado deles, mesmo em seus piores destinos. Não é explicado o sentido do sofrimento, mistério muito profundo para qualquer ser humano. Ao invés disso, Deus oferece a si próprio como consolador das mazelas humanas.
Kolya, ao que parece, não encontra Deus no final de sua jornada. Encontra dor, profunda dor de ter sido privado de tudo o que lhe era mais valioso. Encontra um sistema que o massacra, e um deus que apoia os poderosos no exercício do poder e na servidão ao capital. A única liberdade está no mar, aonde o Leviatã pode viver em liberdade; mas assim que coloca os pés nesse chão, só a miséria e a tragédia o acompanham.
A história de Kolya, e também de Jó, nos deixa atormentados. Deus se opõe aos projetos de poder, sejam eles em nome da Igreja ou em nome de Satanás. Em meio ao sofrimento de uma realidade cruel e desigual, aonde os poderosos enriquecem a custa dos mais fracos, Deus mostra suas feridas e nos encoraja a confiar e a caminhar com Ele. Que tais histórias nos levem a buscar a “Shalom” de Deus, na esperança de ver o Reino estabelecido aqui e nos cantos mais miseráveis dessa terra. Que nosso silêncio em meio à dor possa ser acompanhado por uma esperança ativa, que proclama a justiça e a verdade de um Deus justo e sofredor.
• Gabriel Brisola tem 24 anos, é formado em jornalismo e atua como fotógrafo.

ultimato

Qual a chave para a liberdade?

JS_06_11_15_chave_liberdadeMuitas pessoas estão preocupadas com a busca pela liberdade. Para uns, ela é a liberdade nacional, a emancipação de um jugo colonial ou neocolonial. Para outros, é a liberdade civil, de direitos e liberdades individuais. E para outros, ainda, é a liberdade econômica, a liberdade da pobreza, da fome e do desemprego. Mas, para todos nós, ela é a liberdade pessoal. Até mesmo aqueles que lutam mais arduamente por aquelas outras liberdades citadas em geral sabem que eles mesmos não são livres. Eles se sentem frustrados, insatisfeitos e sem liberdade. Certa vez o célebre novelista britânico John Fowles, quando lhe perguntaram se havia algum tema especial em seus livros, respondeu: “Sim. Liberdade. Como alcançar a liberdade. É a minha obsessão, todos os meus livros falam sobre isso”.
Liberdade é uma grande palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. Ele disse que viera “libertar os oprimidos” (Lc 4.18). E acrescentou mais adiante: “se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres” (Jo 8.36). Do mesmo modo, o apóstolo Paulo escreveu: “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5.1).
Liberdade é hoje uma palavra moderna para “salvação”. Ser salvo por Jesus Cristo é ser liberto. No entanto, quando se introduz a palavra “salvação” em uma conversa ela gera diferentes reações. Alguns reagem com constrangimento e mudam de assunto o mais rápido possível. Outros reagem com tédio. Eles bocejam e não ficam vermelhos, porque para eles os termos “pecados” e “salvação” fazem parte de um vocabulário religioso tradicional que já se tornou obsoleto e sem sentido. Um terceiro grupo vive em meio à confusão, porque não tem ideia de como a palavra “salvação” deveria ser definida. No entanto, quando se fala em “liberdade”, as pessoas logo demonstram interesse.
A bela história de B. F. Westcott, um famoso estudioso do Novo Testamento, ilustra essa confusão. Durante alguns anos ele foi professor de divindade na Universidade de Cambridge e em 1890 tornou-se bispo de Durham. Conta-se que, enquanto viajava de ônibus para um determinado lugar, ele foi abordado por uma jovem do Exército de Salvação. Sem se intimidar com os trajes que denunciavam sua posição religiosa, a moça lhe perguntou se era salvo. Com um brilho no olhar, o bispo respondeu: “Bem, minha querida, depende do que você quer dizer. Você quer dizersozomenos ou sessmenos ou sothesomenos?” — usando os tempos presente, passado e futuro do verbo grego sozo, que significa “salvar”.
Espero que neste capítulo o leitor não se sinta constrangido, cansado ou confuso, mas que possamos reafirmar e restabelecer essa grande e gloriosa palavra “salvação”, pois ela é uma palavra bíblica (não pode ser simplesmente rejeitada) e uma grande palavra (inclui todo o propósito de Deus). Então, deveríamos estar aptos a fazer coro com Paulo, que escreveu: “Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: primeiro do judeu, depois do grego” (Rm 1.16).
Lembro-me bem de, quando era um cristão recém-convertido, ter lido esse versículo e ter sido apresentado ao que chamamos de “três tempos da salvação”. Eles são os seguintes:
Primeiro, fui salvo (ou liberto) no passado da penalidade do pecado por um Salvador crucificado.
Segundo, estou sendo salvo (ou liberto) no presente do poder do pecado por um Salvador vivo.
Terceiro, serei salvo (ou liberto) no futuro da presença do pecado por um Salvador que virá.
Trata-se de uma estrutura simples, que engloba o que a Bíblia quer dizer por “salvação”. Ela nos capacitará, sempre que a palavra aparecer, a perguntarmos a nós mesmos que tempo da salvação — passado, presente ou futuro — está em mente. O fato de que fomos salvos nos liberta da culpa e do julgamento de Deus. O fato de que estamos sendo salvos nos liberta da escravidão da nossa própria autocentralidade. E o fato de que seremos salvos nos liberta de todo o temor acerca do futuro.
Trecho do livro Por que sou cristão (p. 89 – 92)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ministério: Chamado ou Profissão? - Dr. Russell Shedd



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Todos somos sacerdotes

Não é necessário ser um conhecedor profundo da história eclesiástica para saber que, do ponto de vista teológico, a Reforma Protestante do século XVI teve como objetivo principal o retorno da Igreja às Sagradas Escrituras como a base para sua fé e sua vida prática. O episódio mais representativo desta ênfase foi a Dieta de Worms (maio de 1521) convocada pelo imperador Carlos V com o propósito de julgar a Martinho Lutero, que havia sido excomungado previamente como herege pelo Papa Leão por afirmar a autoridade da Bíblia acima da autoridade dos papas e os concílios. Convidado a retratar-se, o reformador alemão respondeu com a seguinte declaração da “sola scriptura, tota scriptura”, uma afirmação que sintetiza a convicção teológica evangélica básica com respeito à centralidade das Escrituras:

“Minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Se não me demonstrarem pelas Escrituras e por razões claras (não aceito a autoridade de papas e concílios, pois se contradizem), não posso nem quero retratar-me de nada, porque ir contra a consciência é tão perigoso quanto errado. Que Deus me ajude, Amém.”

Sobre essa base bíblica os reformadores construíram o edifício teológico constituído pelas ênfases evangélicas que se resumem nas seguintes afirmações: somente a Cristo (“solus Christus”), somente a graça (“sola gratia”),somente a fé (“sola fide”), somente a glória de Deus (“soli deo gloria”), a igreja reformada sempre se reformando (“ecclesia reformata semper reformanda”). No entanto, já em 1520, antes da Dieta de Worms, Lutero escreveu três tratados em que expunha sua posição teológica em controvérsia com a sustentada oficialmente pela Igreja Católica Romana: “A liberdade cristã”, “À nobreza alemã acerca do melhoramento do Estado cristão”, e “O cativeiro babilônico”.

De importância especial em relação ao nosso tema é o segundo dos tratados que mencionamos. Ainda que não negue a necessidade de um ministério “ordenado” por razões funcionais, em seu tratado dirigido à “nobreza alemã” Lutero rejeita a forte divisão tradicional entre clérigos e leigos, e afirma o sacerdócio de todos os crentes (também denominado “sacerdócio comum”) nos seguintes termos:

“Todos os cristãos são em verdade de estado eclesiástico e entre eles não há distinção, se não somente por causa do ministério, como Paulo diz que todos somos um corpo, mas que cada membro tem sua função própria com a qual serve aos demais. Isso resulta do fato de que temos um só batismo, um Evangelho, uma fé e somos cristãos iguais, visto que o batismo, o Evangelho e a fé por si sós tornam eclesiástico ao povo cristão”.

A base bíblica desta posição é sólida. De acordo com o ensino do Novo Testamento, o único sacerdócio válido até o fim da era presente é o sacerdócio de Jesus Cristo, que se ofereceu a si mesmo em sacrifício pelos pecados e “com um só sacrifício tornou perfeitos para sempre aos que está santificando” (Hb 10.14). Todos os que confiam nele têm acesso direto à presença de Deus (10.19-22). Ninguém pode oferecer mais sacrifícios pelo pecado: a obra de redenção está consumada; Jesus Cristo homem é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Em virtude de sua relação com ele, todos os crentes participam de seu sacerdócio: são o sacerdócio do Rei (1Pe 2.9); são “reis e sacerdotes” (Ap 1.5; 5.10). E como tais são chamados a oferecer-se a si mesmos, “em adoração espiritual... como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).

Biblicamente, todo cristão é sacerdote pelo único motivo de ser cristão. A Igreja é um povo sacerdotal. Consequentemente, todos os seus membros foram consagrados ao serviço de Deus, e para realizá-lo receberam “diversos dons”, “diversas maneiras de servir”, “diversas funções” que o Espírito reparte “para o bem dos demais” (1Co 12).

Sobre esta base bíblica, a Reforma Protestante do século XVI abriu o caminho para que cada igreja local seja uma igreja-comunidade que supere a dicotomia entre clérigos e leigos e todos os membros do corpo de Cristo, sem exceção, participem em serviços que manifestem o amor a Deus e ao próximo, de maneira prática. A pergunta que temos que nos fazer hoje é: até que ponto nossas congregações estão comprometidas com o sacerdócio de todos os crentes, levando em conta que “todos os que foram batizados em Cristo se revestiram de Cristo” e, em consequência, “já não há judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher” (Gl 3.27-28)?

Traduzido por Tonica van der Meer.

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498 anos de Reforma Protestante

Falta pouco, muito pouco, apenas dois anos, para a celebração do aniversário de meio milênio do protestantismo! Em outubro de 2017 lembraremos os quinhentos anos do movimento reformador, que, sem exagero, mudou a face da Alemanha, onde começou, da Europa e até mesmo de todo o mundo. Eu me lembro muito bem de 1983, o ano do quinto centenário do nascimento de Martinho Lutero, e espero, mercê de Deus, estar aqui em 2017. Todavia, antes de prosseguir, faço uma observação, por amor à precisão histórica: há que se registrar que o nome de família do futuro reformador era Luder, mas quando ele seguiu a carreira acadêmica, trocou-o para Luther – “Lutero” – por considerar a nova forma mais respeitável academicamente.

A Federação Luterana Mundial e várias outras entidades ecumênicas e confessionais já há alguns anos planejam a grande comemoração dos 500 anos da Reforma. Decerto haverá daqui a dois anos excursões provenientes de todos os cantos do globo para percorrer o Lutherweg, “o caminho de Lutero”, não apenas na Turíngia, onde ele nasceu e passou a maior parte de sua vida, mas em toda parte do território alemão que de um modo ou de outro tenha algo a ver com a trajetória política, intelectual, econômica, social e espiritual dos começos da Reforma Protestante.

Em 2006 tive a oportunidade de conhecer Worms, onde em 1521 acontecera a Wormser Reichstag, a “Dieta de Worms”, convocada pelo próprio Imperador Carlos V do Sacro Império Romano Germânico. Um dos temas tratados na reunião foi a convocação ao monge agostiniano Martim (Martinho) Lutero a que se retratasse de suas 95 teses, publicadas quatro anos antes. Lutero foi advertido por seus amigos a não ir, pois corria risco de vida. Sua resposta ficou famosa: “vou a Worms nem que lá haja tantos demônios como telhas nos telhados das casas da cidade”. Lá, ao ser desafiado a se retratar, Lutero respondeu “Hier stehe ich. Ich kann nicht anders”, algo mais ou menos como “Aqui estou. Não posso fazer nada diferente”. Em outras palavras, “não vou me retratar”.

E eis que agora em agosto de 2015, eu tive a oportunidade de apresentar um trabalho na mesa “Cristianismo e sociedade” da assembleia quinquenal da Associação Internacional de História das Religiões (AIHR), em Erfurt, cidade muito importante na trajetória de Lutero. O congresso aconteceu na universidade da cidade, que tem Lutero como seu mais famoso ex-aluno! A região da Turíngia, onde está Erfurt (que nos anos da Guerra Fria era Alemanha Oriental) foi muito importante na vida de Lutero. Começando pelo fato que ele nasceu em Eisleben, distante cerca de 90 quilômetros de Erfurt. Lutero permaneceu no “Agostinerkloster”, o Mosteiro Agostiniano em Erfurt de 1505 a 1511. Lá seu mestre espiritual foi Staupitz, a respeito de quem Lutero disse que se não fosse por ele (Staupitz), sua alma arderia para sempre no inferno. Foi por influência de Staupitz que, entre outras coisas, Lutero foi encaminhado para os estudos bíblicos. Mas antes, em 1498, Hans e Margarethe, seus pais, o enviaram para Eisenach, na mesma Turíngia, para estudar na escola da Igreja de São Jorge, em preparação para seus futuros estudos universitários.
Lutero depois foi para Wittenberg, não muito distante de Erfurt, lecionar na então recente (1502) universidade criada pelo Príncipe Eleitor Friedrich der Weise, “Frederico, o Sábio”. Foi em Wittenberg que no dia 31 de outubro de 1517, véspera do Dia de Todos os Santos, Lutero divulgou suas famosas 95 Teses contra a venda de indulgências. O texto das 95 Teses foi enviado em forma de carta ao Arcebispo Alberto de Magdburgo e Mentz. Uma leitura das Teses revela um Lutero ousado e polemista, “sem papas na língua” como se diz. Mas percebem-se já ênfases que marcariam a construção teológica protestante clássica. Exemplo eloquente disto é a Tese 62: “O verdadeiro tesouro da Igreja é o Santo Evangelho da glória e da graça de Deus”.

Ao voltar de Worms para Wittenberg, Lutero simplesmente desapareceu. Circulou-se na época o boato de que seus inimigos usaram de violência física contra ele por não poderem rebater seus argumentos. O sumiço de Lutero se deu por obra e graça de seu protetor, o já citado Príncipe Eleitor Frederico da Saxônia, que mostrou que era realmente sábio. Lutero fora “sequestrado” e levado em absoluto segredo para o Castelo de Wartburg, nas imediações de Eisenach. O Wartbug já existia há séculos na época de Lutero. Lá ele ficou oculto por cerca de dez meses. Neste tempo, traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão. Os participantes do congresso da AIHR tiveram oportunidade de visitar Eisenach e o Wartburg. O Wartburg é bastante grande, e o cubículo que serviu de escritório para Lutero quando ele traduziu o Novo Testamento fica na parte superior do castelo. Foi uma emoção imensa e intensa estar em um lugar tão importante para a história do protestantismo, a respeito do qual eu já tinha lido tantas e tantas vezes, e que nunca pensei que um dia conseguiria visitar!

A comemoração do aniversário da Reforma é importante. Não para cair em um sentimentalismo meloso, muito comum em muitas abordagens que efetivamente têm um olhar idealizado para a Reforma. Estas abordagens são fruto de uma historiografia ingênua, que se limita a glorificar os “heróis” do passado. Devemos ter cuidado para não cairmos nesta tentação.

“Solas”
A Reforma nos traz constantemente desafios. Um olhar, mesmo superficial, do evangelicalismo brasileiro contemporâneo mostra que o lema luterano “Sola Scriptura” – “A Escritura (Bíblia) somente” – precisa urgentemente ser resgatado. O analfabetismo bíblico que impera em muitos meios chamados evangélicos no Brasil atualmente é assustador. Um tanto do que se vê no mundo evangélico brasileiro é tão supersticioso e carregado de tradições não bíblicas quanto o universo religioso do tempo de Lutero. Neste sentido, há que se voltar com urgência não apenas para o “Sola Scriptura”, mas também para as demais bandeiras da Reforma: “Sola gratia” (Só a graça), “Sola Fide” (Só a fé) e “Solus Christus” (Só Cristo).

Comemorar a Reforma é importante, mas não é tudo. Temos que conhecer e valorizar nossa história, mas é necessário mais que isto. Dietrich Bonhoeffer, grande luterano, disse no sermão que pregou na comemoração do Dia da Reforma em 1932:

“No dia do juízo final Deus seguramente não nos perguntará se celebramos dias da Reforma à altura, mas se ouvimos e guardamos sua palavra”1.

Neste 31 de outubro de 2015, vamos lembrar a Reforma do século XVI. De maneira a um só tempo crítica e piedosa. Mas sem esquecer da oportuna advertência feita por Bonhoeffer.

Nota:
1. Cf. Bonhoeffer, Dietrich. Prédicas e alocuções. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2007, p. 49. Este volume, pequena coletânea de sermões e homilias de Bonhoeffer, foi publicado originalmente na Alemanha em 1961.

Foto: Carlos Caldas | Grafite representando Lutero, sua assinatura e suas 95 Teses em uma rua de Erfurt, Alemanha.

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